quarta-feira, 27 de maio de 2009

Piano Forte

Acordei a fremir. Meu corpo em estranhos movimentos inquietos foi até a pia do banheiro, me olhei no espelho... Vi não muito mais que um velho desinteressante, enrugado em plenos cinqüenta. O reflexo do saxofone sobre o piano, no meu quarto, revelava mais sobre a minha personalidade do que meus olhos.
Depois de um conturbado rito matinal, tentei fazer minha caminhada tão tradicional quanto as velhas que me fitavam lembrando a época que exibiam alguma beleza, da época em que ainda olhava pra elas. Ignorei-as, como o rito mandava, e segui tremelicando por uns dois quarteirões. No terceiro, me sentei na calçada, pensei – porra! Será que é Parkinson?!
Voltei pra casa e segui com a cerimônia, preparei o café, o pão e o cigarro. Bebi, comi, fumei... Muito mais calmo, mas ainda fremindo, resolvi tocar o piano.
Uma frase ecoava na minha cabeça, e fiz o que ela mandava: “me desmilingui ao som do blues”. Era triste, mas vivo. Nervoso, mas apaixonado. Tenso, mas com toques de suavidade. Passando por semitons ocultos, até aos meus trinta e tantos anos de música. Destoava para um jazz não menos triste, não menos vivo e visceral...
Eu não tremia, eu não fumava, eu não era gente, não era coisa, não era nada... Eu era som, era um martelo numa corda, uma vibração no ar. Eu era o desagrado dos vizinhos, eu era jovem, eu tinha todas as mulheres, mas não tinha ninguém, eu era sozinho, era todos, era tudo, era nada. Eu era som...
Minhas mãos eram firmes, agora, minha alma era quem fremia. Meu corpo tinha vinte e cinco, e eu tinha tudo. Uma morena cantava ao meu ouvido em uma voz aveludada, e tocava minha face e meus ombros com mãos de seda. A canção se aproximava cada vez mais do pé de meu ouvido e o corpo da jovem, do meu.
Ela cantava em francês e tinha olhos grandes. Já acariciava meu peito... Minhas mãos nas teclas iam desfiando o blues sem fim. Ia viajando por um som que de tão meu, deixara de ser meu, passara a ser eu. E dançava pelo quarto, com a jovem morena. Bailava nu pelo ar do cômodo.
Escapei pela janela, mas não estava sozinho, a cantora francesa me acompanhava... Falava coisas que não entendia, mas sabia que falava de desejo... Desde sempre adorei o francês, agora ele me parecia mais sedutor e belo. Eu era desejo. Depois de dançar pelo ar algumas horas, despedi-me de minha cantora francesa. Ela, nua, lamentava, mas entendia que em algum momento eu retornaria. Tirei minhas mãos do teclado do piano, lentamente eu era quem eu era, novamente. O peso de minha idade apareceu em minhas costas, pelo tempo sentado. Estava “desmilinguido”, mas satisfeito. Deitei na cama, e dormi... Acordaria mais tarde, e quem sabe tocaria um pouco de saxofone...

Um comentário:

Raquel Luanda disse...

brunnão amanhã?
hahahah

genial define tudo?

genial.