Descia a rua toda a se rebolar, amparada por uma amiga e sua bengala branca. Não tropeçava em nada, nem pisava nos “vestígios” dos cachorros. Andava com uma graça só dela, tão dela quanto os pelos mal aparados do rosto.
Quando passava na frente do bar, Geraldão era só desejo. Cortejava sem rodeios a distinta dama.
Ela, sabidamente, não escutava nada, queria lhe atiçar toda a macheza. Depois de três ou quatro assovios do homem em chamas, respondia com toda a atenção (afinal, Geraldão era um dos poucos que tratava falso por verdadeiro).
Nessa hora, como era de costume, a amiga confiava suas funções de guardiã à bengala, e voltava para seu local de trabalho, a umas duas quadras do bar.
Marta, desamparada de um braço amigo, era levada para o quarto apertado e sujo nos fundos do estabelecimento. Se fazia de ingênua e desentendida, sempre perguntava para onde estava sendo levada bem na hora que Geraldão fechava a porta.
As conversas do bar geralmente são berradas, principalmente quando a programação da televisão, toscamente fixada na parede, inclui futebol. Os bêbados falam sobre a escalação, a política, alguém tenta ensaiar um discurso revolucionário, e voltam a falar sobre futebol. A conversa no quarto dos fundos não foi menos berrada, e também durou algumas ‘meias horas’.
Quando a porta se abriu em sauna, a amiga já esperava pela dama, tomando sua segunda dose de cachaça. Geraldo entregou a Marta uma nota, surrada demais para ser de cinqüenta. A amiga viu, mas preferiu terminar a conversa com um jovem que mal parava sentado, antes de ir de encontro aos dois.
Marta sentia em suas mãos ainda suadas, o baixo valor da nota, também sabia que a amiga tinha conhecimento disto. Até desconfiava que a amiga o atendesse em certas ocasiões. Mas nada disso importava, não com Geraldão. Sabia, com ele, era mulher.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
domingo, 2 de novembro de 2008
Perdida
Manuela perdida em pensamentos adentrava terrenos por onde já havia deixado seu pensamento correr. Caminhava em direção a sua casa de forma mecânica, anos e anos do mesmo caminho lhe asseguravam a tranqüilidade para fazê-lo de olhos fechados. Já nem via mais as árvores marcadas pelos artistas de rua, nem mesmo as crianças que no parque gritavam. Pensava em algo mais profundo do que o ambiente que a rodeava. Em sua cabeça entre as milhares de cores e movimentos letargicamente distorcidos, não condizentes com os seus próprios, havia a busca do belo.
Mas para essa jovem, o belo não era algo que conceitos tão simples como os da filosofia ou os das nossas formas de arte poderiam abarcar com facilidade... O belo era algo mais interior, mais visceral, a ligação com o divino saída direto do estomago, passando pelos intestinos, subindo para a cabeça e saindo (nem sempre) pela boca.
Com certa letargia começava levemente a abrir a boca, sua língua começava a retomar os movimentos... Mas uma mão agarrou seu ombro, tirando-a do transe. Não era uma mão amiga, nem uma mão bela. Passaram-se alguns segundos até que se desse conta que realmente havia outra pessoa ali. O desconhecido a olhava com olhos de pedinte, mas não parecia desejar dinheiro, o olhar submisso explicitava o sofrimento de uma vida de 50 anos desperdiçada. Apesar da boca do homem não se mover, sua mensagem era clara.
Não se pode dizer se Manuela a compreendeu ou não, mas sua caminhada retornou ao rumo que seguia, com a diferença de algumas esquinas que não foram, tradicionalmente, dobradas. Dessa vez olhava atentamente o caminho.
Mas para essa jovem, o belo não era algo que conceitos tão simples como os da filosofia ou os das nossas formas de arte poderiam abarcar com facilidade... O belo era algo mais interior, mais visceral, a ligação com o divino saída direto do estomago, passando pelos intestinos, subindo para a cabeça e saindo (nem sempre) pela boca.
Com certa letargia começava levemente a abrir a boca, sua língua começava a retomar os movimentos... Mas uma mão agarrou seu ombro, tirando-a do transe. Não era uma mão amiga, nem uma mão bela. Passaram-se alguns segundos até que se desse conta que realmente havia outra pessoa ali. O desconhecido a olhava com olhos de pedinte, mas não parecia desejar dinheiro, o olhar submisso explicitava o sofrimento de uma vida de 50 anos desperdiçada. Apesar da boca do homem não se mover, sua mensagem era clara.
Não se pode dizer se Manuela a compreendeu ou não, mas sua caminhada retornou ao rumo que seguia, com a diferença de algumas esquinas que não foram, tradicionalmente, dobradas. Dessa vez olhava atentamente o caminho.
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