quarta-feira, 10 de junho de 2009

Papelzinho

Caminho de volta a minha casa depois de mais uma manhã de estudo, essa não foi exaustiva, mas uma noite mal dormida torna qualquer atividade estafante. Meu caminho é embalado por crises do país, exposições que nunca visitei, lugares distantes. Vez ou outra meus olhos viam as pessoas que passavam por mim. Algumas moças eram bonitas, outras nem tanto, senhores cansados também povoavam os passantes.
Todos esses não mudavam a minha expressão, me eram tão indiferentes quanto os postes ou os carros e não me impressionaria se eu fosse indiferente na visão deles. Os olhares eram quase sempre os mesmos. Talvez uma moça ou outra tenha me olhado com maior interesse, mas duvido de qualquer olhar desses e duvido ainda mais dos interesses que escondem.
Um olhar apenas me foi diferente de todos os outros, causou embaraço e comoção. Não era de uma moça, mas sim de um rapaz muito jovem, de uns três ou quatro anos de idade. Ele vinha caminhando um pouco a frente do pai e da irmã um pouco mais velha, caminhava com um sorriso no rosto e me fitava. Mudou a direção de seus passos atrapalhados e trabalhados, com pé ante pé, veio em minha direção com aquele sorriso inabalável.
Fiquei um pouco sem graça, mas estava curioso pra saber o que ele tinha a me oferecer, o que faria? O que diria? Pra minha surpresa estendeu a mão com um pequeno pedaço de papel. No auge de minha curiosidade perguntei – é pra mim? – ele acenou com a cabeça em afirmação, me virou as costas e foi de encontro ao pai.
Chegando próximo do adulto que o acompanhava falou – ó pai! Eu dei pro moço! – e sorridente apontou para mim. O pai, levemente desconcertado, olhou para mim e por um breve momento de hesitação não soube como agir, decidiu sorrir (provavelmente incentivado pela risada sincera que a criança me inspirou). Por fim, simpático, fez um cumprimento com a cabeça e seguiu seu caminho.
Eu, depois dessa cena, continuei a caminhar. Olhei para o papel que a criança me entregara, e li o grande “Igreja Batista”. Aquela criança dificilmente tinha alguma noção de que passava uma mensagem, eu aceitando essa ou não, mas tinha alegria em fazer isso. Sorria como se estivesse brincando, como se estivesse fazendo algo que seu pai se orgulharia. Talvez aquela fosse a sua pequena vitória, seu breve momento de glória diante de sua irmã mais velha.
Por essa glória imaginada, esse momento que pode ter sido, não jogo o papel da igreja no lixo, mas guardo com carinho entre as coisas que por algum motivo me mudam.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Piano Forte

Acordei a fremir. Meu corpo em estranhos movimentos inquietos foi até a pia do banheiro, me olhei no espelho... Vi não muito mais que um velho desinteressante, enrugado em plenos cinqüenta. O reflexo do saxofone sobre o piano, no meu quarto, revelava mais sobre a minha personalidade do que meus olhos.
Depois de um conturbado rito matinal, tentei fazer minha caminhada tão tradicional quanto as velhas que me fitavam lembrando a época que exibiam alguma beleza, da época em que ainda olhava pra elas. Ignorei-as, como o rito mandava, e segui tremelicando por uns dois quarteirões. No terceiro, me sentei na calçada, pensei – porra! Será que é Parkinson?!
Voltei pra casa e segui com a cerimônia, preparei o café, o pão e o cigarro. Bebi, comi, fumei... Muito mais calmo, mas ainda fremindo, resolvi tocar o piano.
Uma frase ecoava na minha cabeça, e fiz o que ela mandava: “me desmilingui ao som do blues”. Era triste, mas vivo. Nervoso, mas apaixonado. Tenso, mas com toques de suavidade. Passando por semitons ocultos, até aos meus trinta e tantos anos de música. Destoava para um jazz não menos triste, não menos vivo e visceral...
Eu não tremia, eu não fumava, eu não era gente, não era coisa, não era nada... Eu era som, era um martelo numa corda, uma vibração no ar. Eu era o desagrado dos vizinhos, eu era jovem, eu tinha todas as mulheres, mas não tinha ninguém, eu era sozinho, era todos, era tudo, era nada. Eu era som...
Minhas mãos eram firmes, agora, minha alma era quem fremia. Meu corpo tinha vinte e cinco, e eu tinha tudo. Uma morena cantava ao meu ouvido em uma voz aveludada, e tocava minha face e meus ombros com mãos de seda. A canção se aproximava cada vez mais do pé de meu ouvido e o corpo da jovem, do meu.
Ela cantava em francês e tinha olhos grandes. Já acariciava meu peito... Minhas mãos nas teclas iam desfiando o blues sem fim. Ia viajando por um som que de tão meu, deixara de ser meu, passara a ser eu. E dançava pelo quarto, com a jovem morena. Bailava nu pelo ar do cômodo.
Escapei pela janela, mas não estava sozinho, a cantora francesa me acompanhava... Falava coisas que não entendia, mas sabia que falava de desejo... Desde sempre adorei o francês, agora ele me parecia mais sedutor e belo. Eu era desejo. Depois de dançar pelo ar algumas horas, despedi-me de minha cantora francesa. Ela, nua, lamentava, mas entendia que em algum momento eu retornaria. Tirei minhas mãos do teclado do piano, lentamente eu era quem eu era, novamente. O peso de minha idade apareceu em minhas costas, pelo tempo sentado. Estava “desmilinguido”, mas satisfeito. Deitei na cama, e dormi... Acordaria mais tarde, e quem sabe tocaria um pouco de saxofone...