Caminho de volta a minha casa depois de mais uma manhã de estudo, essa não foi exaustiva, mas uma noite mal dormida torna qualquer atividade estafante. Meu caminho é embalado por crises do país, exposições que nunca visitei, lugares distantes. Vez ou outra meus olhos viam as pessoas que passavam por mim. Algumas moças eram bonitas, outras nem tanto, senhores cansados também povoavam os passantes.
Todos esses não mudavam a minha expressão, me eram tão indiferentes quanto os postes ou os carros e não me impressionaria se eu fosse indiferente na visão deles. Os olhares eram quase sempre os mesmos. Talvez uma moça ou outra tenha me olhado com maior interesse, mas duvido de qualquer olhar desses e duvido ainda mais dos interesses que escondem.
Um olhar apenas me foi diferente de todos os outros, causou embaraço e comoção. Não era de uma moça, mas sim de um rapaz muito jovem, de uns três ou quatro anos de idade. Ele vinha caminhando um pouco a frente do pai e da irmã um pouco mais velha, caminhava com um sorriso no rosto e me fitava. Mudou a direção de seus passos atrapalhados e trabalhados, com pé ante pé, veio em minha direção com aquele sorriso inabalável.
Fiquei um pouco sem graça, mas estava curioso pra saber o que ele tinha a me oferecer, o que faria? O que diria? Pra minha surpresa estendeu a mão com um pequeno pedaço de papel. No auge de minha curiosidade perguntei – é pra mim? – ele acenou com a cabeça em afirmação, me virou as costas e foi de encontro ao pai.
Chegando próximo do adulto que o acompanhava falou – ó pai! Eu dei pro moço! – e sorridente apontou para mim. O pai, levemente desconcertado, olhou para mim e por um breve momento de hesitação não soube como agir, decidiu sorrir (provavelmente incentivado pela risada sincera que a criança me inspirou). Por fim, simpático, fez um cumprimento com a cabeça e seguiu seu caminho.
Eu, depois dessa cena, continuei a caminhar. Olhei para o papel que a criança me entregara, e li o grande “Igreja Batista”. Aquela criança dificilmente tinha alguma noção de que passava uma mensagem, eu aceitando essa ou não, mas tinha alegria em fazer isso. Sorria como se estivesse brincando, como se estivesse fazendo algo que seu pai se orgulharia. Talvez aquela fosse a sua pequena vitória, seu breve momento de glória diante de sua irmã mais velha.
Por essa glória imaginada, esse momento que pode ter sido, não jogo o papel da igreja no lixo, mas guardo com carinho entre as coisas que por algum motivo me mudam.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
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