segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Marta

Descia a rua toda a se rebolar, amparada por uma amiga e sua bengala branca. Não tropeçava em nada, nem pisava nos “vestígios” dos cachorros. Andava com uma graça só dela, tão dela quanto os pelos mal aparados do rosto.
Quando passava na frente do bar, Geraldão era só desejo. Cortejava sem rodeios a distinta dama.
Ela, sabidamente, não escutava nada, queria lhe atiçar toda a macheza. Depois de três ou quatro assovios do homem em chamas, respondia com toda a atenção (afinal, Geraldão era um dos poucos que tratava falso por verdadeiro).
Nessa hora, como era de costume, a amiga confiava suas funções de guardiã à bengala, e voltava para seu local de trabalho, a umas duas quadras do bar.
Marta, desamparada de um braço amigo, era levada para o quarto apertado e sujo nos fundos do estabelecimento. Se fazia de ingênua e desentendida, sempre perguntava para onde estava sendo levada bem na hora que Geraldão fechava a porta.
As conversas do bar geralmente são berradas, principalmente quando a programação da televisão, toscamente fixada na parede, inclui futebol. Os bêbados falam sobre a escalação, a política, alguém tenta ensaiar um discurso revolucionário, e voltam a falar sobre futebol. A conversa no quarto dos fundos não foi menos berrada, e também durou algumas ‘meias horas’.
Quando a porta se abriu em sauna, a amiga já esperava pela dama, tomando sua segunda dose de cachaça. Geraldo entregou a Marta uma nota, surrada demais para ser de cinqüenta. A amiga viu, mas preferiu terminar a conversa com um jovem que mal parava sentado, antes de ir de encontro aos dois.
Marta sentia em suas mãos ainda suadas, o baixo valor da nota, também sabia que a amiga tinha conhecimento disto. Até desconfiava que a amiga o atendesse em certas ocasiões. Mas nada disso importava, não com Geraldão. Sabia, com ele, era mulher.

domingo, 2 de novembro de 2008

Perdida

Manuela perdida em pensamentos adentrava terrenos por onde já havia deixado seu pensamento correr. Caminhava em direção a sua casa de forma mecânica, anos e anos do mesmo caminho lhe asseguravam a tranqüilidade para fazê-lo de olhos fechados. Já nem via mais as árvores marcadas pelos artistas de rua, nem mesmo as crianças que no parque gritavam. Pensava em algo mais profundo do que o ambiente que a rodeava. Em sua cabeça entre as milhares de cores e movimentos letargicamente distorcidos, não condizentes com os seus próprios, havia a busca do belo.
Mas para essa jovem, o belo não era algo que conceitos tão simples como os da filosofia ou os das nossas formas de arte poderiam abarcar com facilidade... O belo era algo mais interior, mais visceral, a ligação com o divino saída direto do estomago, passando pelos intestinos, subindo para a cabeça e saindo (nem sempre) pela boca.
Com certa letargia começava levemente a abrir a boca, sua língua começava a retomar os movimentos... Mas uma mão agarrou seu ombro, tirando-a do transe. Não era uma mão amiga, nem uma mão bela. Passaram-se alguns segundos até que se desse conta que realmente havia outra pessoa ali. O desconhecido a olhava com olhos de pedinte, mas não parecia desejar dinheiro, o olhar submisso explicitava o sofrimento de uma vida de 50 anos desperdiçada. Apesar da boca do homem não se mover, sua mensagem era clara.
Não se pode dizer se Manuela a compreendeu ou não, mas sua caminhada retornou ao rumo que seguia, com a diferença de algumas esquinas que não foram, tradicionalmente, dobradas. Dessa vez olhava atentamente o caminho.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Seco

Sonhei esta noite. Foi um sonho estranho, me trouxe lembranças antigas e nada boas. No sonho eu era uma arvore, e assistia a minha vida até o momento atual, vi todos os meus fracassos, passaram por de baixo de mim. De uma maneira estranha, aquela situação me era confortável. Sabia que era eu o fracassado, mas a perspectiva que eu tinha me aliviava, como se aquele não fosse eu. Sentia um conforto doentio. Acordei sentido uma náusea e cheiro de sangue na minha boca. Seria esse um daqueles maus agouros que se morriam de medo os antigos? Tanto faz se for agouro ou não, a única coisa que realmente me incomodou foi o suor. Realmente odeio acordar suado. A necessidade do banho logo após levantar, me deprime profundamente.
E dessa forma começava mais uma segunda-feira monótona, mal cheirosa, cheia de pessoas desagradáveis com comprimentos desagradáveis, com expressões falsamente desagradáveis. Na fábrica as buzinas anunciavam o início do expediente. Batia o cartão e ia para minha função dirigir uma maldita empilhadeira. Reclamo dela, mas sou obrigado a admitir que era mais amiga do que muita gente, apesar de só ter vida quando eu me posiciono em seu assento, me entendia melhor que qualquer um.
Acabado o expediente, nada me aguarda alem do bar, e a cadeira onde me sento dia após dia, onde desconfio ter minhas nadegas gravadas , como um famoso na calçada da fama. Peço o de sempre, pinga pura e alguns amendoins. O salgado e azedo do amendoim me secam a boca. Sedento, tomo a pinga que desce queimando goela abaixo.
E nesse ponto meu sonho passa a ter algum significado, a resposta que muitos não encontram numa vida, ou como diriam alguns mais frescos, tive uma epifania. A arvore que observa as coisas de cima, a arvore eu, está seca, aguardando o momento de tombar, bebendo a secura da pinga, do meu “poderia ser”, da crueza do patrão e da crueza própria...
O único consolo que me traz a aguardente, é que não terei de lembrar... amanhã começa de novo... eu tenho que ir trabalhar....

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Urna

Mar tá pra peixe?
vem cá sabe? sei não...
Geraldo que deve sabe.
- Não, cá sei que mar tá não...

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Mamãe que me perdoe, não posso mais conviver com essa opressão, essa falta de ar. Por que ela me sufoca em carinho?!
Não, não é o que pensa. Ela já se foi... mas continua a me sufocar! Suas fotos em retratos deitados me fitam em desaprovação. Por quê?! Por que essa decepção, o rosto de que algo não saiu como desejava, como se eu tivesse feito algo sujo?!
Não fiz nada errado, ela deveria saber disso!
Discordar nunca foi pecado, ao menos não deveria ser. E isso deveria ter algum peso para ela, já que era tão afeita aos santos e às coisas da igreja.
Que Deus a tenha ao seu diviníssimo lado.
Sim, apesar dos olhares dos olhos ocultos dos retratos, mamãe me tem perdão... Por que haveria de não perdoar seu único filho, que sempre a amou tanto?
Não há dúvidas, ela sabe... se fiz algo, se hesitei, e por fim segui em frente, ela definitivamente sabe que foi unicamente por amor.
Que Deus a tenha em sua estima.
Sinto falta de mamãe, mas sei que foi por amor. Ela me falou que desejava, mais que tudo, me ver feliz.
Ela me tem perdão, sei que tem.

domingo, 14 de setembro de 2008

Começando a Fremir

Depois de muito tempo com essa idéia, os pensamentos já não se continham na cabeça e precisavam sair pra algum lugar. Foram se esgueirando e buscando alguma forma de fugir de sua prisão, e encontraram nesse espaço, a liberdade irrestrita de ir e vir.
E aos poucos vão se organizando da maneira que lhes convém, verso, prosa, e das infinitas formas que sentem ser possível.
Sendo assim começo a liberta-las pouco-a-pouco, dia-a-dia, no infinito.